O Papai Noel da desilusão. Entrevista exclusiva!

Crônica | por Márcio Prado

Às vésperas do Natal, o bom velhinho Papai Noel supervisiona seu CD – Centro de Distribuição, que além de abarrotado de presentes, seus colaboradores duendes correm para finalizar as últimas embalagens e o planejamento logístico, para a distribuição no Brasil.

Estivemos lá, e acompanhamos um pouco da movimentação, a preparação das renas, a limpeza do trenó e, depois de muita insistência, Papai Noel falou com exclusividade à nossa equipe sobre o carregamento, em separado, cujo o mapa apontava para nossa região: “Aqui tem bastante coisa, pois apareceram mais residências para entregarmos.  Principalmente em áreas de mata atlântica.”, comenta o bom velhinho.

Sentamos próximos das renas, e começamos a entrevista:

REPÓRTER: Sr. Noel, quais são as novidades para este Natal?

PAPAI NOEL: Bem, além dos presentes convencionais, brinquedos, doses de amor, saúde, compreensão, entre outros, estamos com um novo pacote, ainda não testado em distribuição em massa, mas tentaremos entregar no coração de cada um: o Pacote Desilusão.

REPÓRTER: O senhor entregará desilusões? Mas isso não depõe contra o Espírito Natalino?

PAPAI NOEL: À primeira vista parece ser contra o Espírito Natalino, mas a entrega deste ano tem objetivo estratégico para salvar algo que foi maqueado: a Esperança.

Isso mesmo, conseguiram maquiar a Ilusão de forma que todos acreditem se tratar de Esperança.

REPÓRTER: Mas isso é uma acusação grave. Quem seria o responsável por este suposto feito?

PAPAI NOEL: Não é suposto feito, é fato.

Sei que é difícil aceitar que tudo aquilo que você defina como esperança, seja na realidade pura ilusão.

A culpa vem de muitos setores que, até sem combinar nada, agiram de maneira uniforme e, por reação em cadeia, rapidamente tomou proporções gigantescas.

Os elementos que favoreceram esta reação em cadeia são diversos: o caráter de cada um, a ambição negativa do ser humano, o desejo de Poder, a maldade pura e simples que habita cada ser humano, o desamor, enfim, são vários fatores.

REPÓRTER: Mas onde entra a tal “maquiagem” da esperança?

PAPAI NOEL: Um dos causadores desta ilusão, que querem que acreditem que é esperança, mas que de esperança nada tem, é o setor político.

Não agem sozinhos, pois precisam da imprensa, a chamada “Chapa Branca”, ou no popular: Imprensa Vendida, para fazer de suas mentiras as mais autênticas verdades.

A pré-disposição do ser humano em não querer sofrer, o faz buscar bons estímulos, boas notícias, mesmo que falsas.

O ser humano teme saber que está sendo enganado, pois na escola não aprendeu a reagir de modo que busque a verdade. Então, todos os dias, notícias surgem em imprensa “vendida” , paga pelo Poder e pronta para iludir o povo.

A desilusão de ter escolhido um vereador errado para representá-lo, por exemplo, faz  o cidadão temer em ver notícias como esta: “Vereador mais uma vez deixa de fiscalizar onde foi aplicado o dinheiro de seus eleitores em obras públicas.”, ou esta, “Prefeito mente ao dizer que a Saúde no municipio está melhor do que antes, afirma vereador.”

No lugar, com o dinheiro desviado dos cofres, plantam a notícia ilusória no Jornal “Comprado” pelo poder da seguinte maneira: “Vereadores aprovam orçamento das obras públicas e elogiam o governo.”, ou esta: “Prefeito diz que antes o povo sofria nos Postos Médicos, mas agora a Saúde melhorou muito.”

Sem ter aprendido como agir, quando a verdade é colocada, e ainda ter que aceitar que errou, ao colocar pessoas erradas no Poder, prefere aceitar prontamente a mentira, a ilusão, das notícias “maquiadas”, para se sentir feliz.

É como uma pessoa com câncer, que ao invés de enfrentar o duro tratamento, que pode causar alguma dor e angústia, mas que dá esperança de cura, prefere tomar poderosos analgésicos, capazes de fazê-lo esquecer qualquer dor e deixa-o na ilusão que está tudo bem, e não percebe que cada vez mais a doença, maligna, se espalha.

REPÓRTER: Então a verdade é um duro tratamento?

PAPAI NOEL: Sim, o mais dolorido, mas o único que liberta.

Se você soubesse que seu Prefeito, vereadores, governadores se valem da imprensa para enganá-lo com notícias falsas, onde mesmo ao cumprir uma obrigação, o fazem acreditar que fizeram um favor para você,  e que ainda você deve-lhes gratidão, certamente jamais o colocaria novamente no Poder.

Quantas vezes vi, aqui do Polo Norte, cenas de inauguração de ruas, obras diversas, onde os políticos fazem o povo acreditar que é “mais um presente” à população?

Veja só que ilusão, pois o serviço foi feito pelo funcionário do povo, com o dinheiro do povo e que a rua, a obra não é um favor, é obrigação.

Sabe quantas vezes vi o povo exigir as contas do que foi gasto com as obras? nenhuma vez.

Porque encaram aquilo como presente (E cavalo dado não se olha os dentes), pois se encarassem como obrigação do político, que usou o dinheiro do povo, certamente iria querer saber se foi gasto adequadamente cada centavo do imposto que paga.

REPÓRTER: Mas numa época destas, de festejos, não é muito cruel dar um presente destes: Desilusão?

PAPAI NOEL: A desilusão é um sentimento, consequência da verdade.

O remédio é amargo, mas liberta. O sorriso de quem vive na ilusão é paranoico, pois nunca sabe quando acabará, por isso quer sorrir como se fosse o último dos sorrisos.

Já o sorriso de que tem a verdade, é um sorriso alegre e consciente. Não se importa se vai sorrir muito ou pouco, pois sabe que ninguém pode lhe arrancar a felicidade enquanto estiver longe das ilusões.

REPÓRTER: Mas o senhor falou de políticos e política. Só há ilusões nisto?

PAPAI NOEL: E onde não há política?

REPÓRTER: Em casa, nas empresas, em quem detesta política…

PAPAI NOEL: Em casa, para se discutir qual será o almoço ou se a família compra ou não algo, há política, o diálogo, a discussão e alguém cedendo em favor da harmonia.

Nas empresas, para levar adiante a idéia que achas ser a melhor solução para o crescimento da corporação, há o diálogo, propostas, discussões e alguém cedendo em favor dos resultados que esperam obter e, para quem detesta política, o diz de maneira política também, pois procura que alguém concorde com ele, ou seja, que seja partidário às suas idéias de detestar política.

REPÓRTER: Mas, no que se resume então o presente da desilusão?

PAPAI NOEL: A novidade que entregarei neste Natal, que chamo de desilusão, é um pacote de vontades, que devem resultar neste sentimento.

Neste pacote estará a insatisfação com aquilo que se ouve, somado com a descrença na palavra do homem.

Ainda virá uma dose a mais de curiosidade e vontade em procurar a verdade. Nada diferente do que um ser humano deveria ter dentro de si, para não aceitar tudo que lhe dizem e buscar sempre as opiniões controversas, para assim avaliar e conferir pessoalmente se o que foi dito corresponde com o que foi feito.

Também inclui uma vontade extra pela leitura, para depois de um tempo o remédio do discernimento venha fazer o efeito necessário e, assim, amenizar a ignorância.

Afinal, a ignorância – que nada mais é do que o desconhecimento dos fatos, é a porta de entrada das ilusões maquiadas em esperança.

O saber, tratará por desmaquear a ilusão. Tratará por restabelecer a Esperança, fundamentada na verdade e deixará o caminho sólido para cada um planejar sua felicidade.

Ainda depois da entrevista, Papai Noel me levou para olhar num espelho muito especial.

Nele me vi pequenino, e perguntei, por que isso?

O bom velhinho, agora abraçado com sua esposa, a Mamãe Noel, respondeu: “É você, sem ilusão. Você se vê no seu real tamanho, pois está iludido ao se achar um grande repórter, apenas por ter entrevistado o Papai Noel.

Saí de lá feliz, pensativo, desiludido, mas de posse da verdade.

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